Dona da Águas de Penha, concessões de água e esgoto da AEGEA tiveram propina em diversas cidades do Brasil, apontam delações


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Uma reportagem bombástica dos jornalistas Graciliano Rocha e Eduardo Militão publicada pelo portal UOL na manhã desta quinta-feira (12) mostra em detalhes, um propinoduto construído pela AEGEA em todo o Brasil. Dona da Águas de Penha, Águas de Bombinhas, Águas de São Francisco do Sul e Águas de Camboriú, no litoral Norte de Santa Catarina, a empresa está em centenas de cidades em todo o país, além de diversas capitais. Em Penha, um prefeito na época dos fatos cobrara R$ 4 milhões para não criar empecilhos à execução do contrato, segundo o delator Ricardo Miranda Barcia Filho. Abaixo, segue na íntegra, a matéria em questão.
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Por muitos anos, a Aegea foi vista por analistas de mercado como um case de expansão agressiva sobre as concessões de água e esgoto no país, desafiando os poderosos atores estatais. A Aegea é uma empresa de DNA 100% privado, controlada pela pela Montese, uma holding pertencente às famílias Toledo e Vettorazzo, que passou a acumular concessões de água e esgoto em cidades menores. A holding também controla a Equipav, tradicional empreiteira paulista. Com uma estratégia de ocupação de territórios parecida com o jogo War, a Aegea saltou de seis municípios atendidos em 2010 para 126 cidades em 2021, em 12 estados, atendendo mais de 11 milhões de pessoas. Atualmente, a empresa atende 890 municípios e 39 milhões de pessoas.
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A expansão na década passada teve um ingrediente secreto: corrupção de prefeitos, governadores e até de integrantes de órgãos de fiscalização, conforme a própria companhia admitiu em um acordo com as autoridades. Segundo documentos e anexos de uma delação premiada homologada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) em 2025, ainda sob sigilo, aos quais o UOL teve acesso, executivos e colaboradores ligados à Aegea admitiram o pagamento de propinas a agentes públicos em pelo menos seis estados e 20 municípios para obter ou manter concessões de água e esgoto. O esquema, que movimentou pelo menos R$ 63 milhões entre 2010 e 2018. O acordo celebrado em 2021 foi homologado pelo ministro Raul Araújo, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em fevereiro de 2025, após cinco anos de tramitação.
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Parte do combinado com o Ministério Público Federal, além da admissão de crimes na esfera penal, foi o pagamento à União de R$ 439 milhões pela empresa —valor dividido em 15 parcelas anuais, corrigidas pelo IPCA. No dia 4 de fevereiro, a Aegea foi procurada pelo UOL com perguntas sobre o conteúdo das delações de seus executivos em 2020 e 2021. No dia 5 de fevereiro, às 9h57 (três minutos antes da abertura da B3), a empresa publicou um fato relevante em que admitia publicamente a existência do acordo de leniência com o MPF, em 2021. No comunicado ao mercado assinado pelo diretor financeiro e de relações com investidores, André Pires de Oliveira Dias, a empresa afirma que o acordo se refere “a circunstâncias anteriores a 2018, apuradas em investigações internas e independentes, compartilhadas voluntariamente com o MPF pela Companhia (…)”.
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Quem bateu à porta dos procuradores para contar que estava pagando propina a rodo foi a própria Aegea, ainda no começo de 2020. O drive da decisão estava conectado a uma mudança estrutural no mercado. Em julho daquele ano, o Congresso aprovaria o Marco do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), que estabeleceu metas de universalização de água potável e expansão da rede de esgoto para 90% dos municípios até 2033. Uma das principais entregas do governo Bolsonaro na área da infraestrutura, a lei fomentou a concorrência, regionalização dos serviços e uma forte atração de investimentos privados.
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Foi neste contexto que a Aegea passou a monitorar oportunidades para captar sócios e reforçar sua capacidade de caixa para entrar nos grandes leilões abertos pelas novas regras do Marco. Naquele momento, segundo uma fonte ligada à empresa que falou com o UOL em condição de não ter o nome revelado, havia negociação com investidores institucionais para aquisição de bloco de ações da empresa para aumentar a musculatura financeira para a entrada nos leilões. Neste tipo de operação, é regra que os investidores realizem processos de “due diligence” antes de fechar negócio. É uma investigação prévia sobre a empresa investida cujo objetivo é confirmar as informações, entender os riscos e evitar surpresas desagradáveis depois. Os acordos de colaboração premiada —em que executivos e ex-executivos admitiram crimes em troca de benefícios penais— e o acordo de leniência, pelo qual a empresa se comprometeu a pagar R$ 439 milhões, ajudaram a estancar o passivo judicial do passado. Com isso, evitaram entraves à entrada de grandes grupos empresariais no quadro de acionistas da companhia.
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No dia 21 de abril daquele ano, a Aegea assinou o termo de acordo de leniência com o Ministério Público Federal. Seis dias depois, a Itaúsa, holding controladora do Itaú Unibanco, virou sócia da Aegea, comprando 10,2% do capital votante e 8,5% do capital total da Aegea Saneamento e Participações, pagando R$ 1,3 bilhão pelas ações. No dia 30, a Aegea venceu o leilão de dois dos quatro blocos da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro). A empresa arrematou os blocos 1 e 4 por R$ 22,7 bilhões na B3, no leilão da distribuição de água e esgoto do Rio, dando seu primeiro grande salto de base populacional no modelo de concessão em blocos. Abril de 2021 foi um mês memorável para a nova Aegea: o risco jurídico com a corrupção havia sido equacionado com o acordo, um dos maiores conglomerados do capitalismo brasileiro entrara na sociedade e a empresa arrastara seus pinos num território cobiçado por outros jogadores: uma parte da capital e outros 26 municípios do Rio.
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Hamilton Amadeo, ex-presidente da Aegea Imagem: Marcio Bruno/FGV

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Arquiteto da expansão da Aegea, o então presidente da companhia, Hamilton Amadeo, era quem tinha a palavra final sobre os pagamentos de propinas a políticos, segundo ele próprio admitiu. O segundo na hierarquia era Santiago Crespo, então diretor comercial da companhia. Ele e Amadeo são os únicos delatores que deverão cumprir pena de prisão, conforme o acordo de colaboração, após o trânsito em julgado e o fim dos recursos no STJ e no STF. Até lá, a punição prevista é de prisão domiciliar.
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Em Santa Catarina, a corrupção da Aegea galgou um degrau extra de institucionalidade, utilizando influência no Tribunal de Contas do Estado (TCE/SC) e repasses a prefeitos para garantir a obtenção e manutenção de concessões de saneamento, segundo os depoimentos à Procuradoria. O esquema, detalhado por delatores, envolvia o pagamento de propinas por meio de dinheiro vivo, contratos fictícios, compra de imóveis e até de veículos de luxo.
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O principal articulador local, o ex-diretor regional Ricardo Miranda Barcia Filho, detalhou a proximidade com órgãos de controle e municípios. Segundo o depoimento dele ao MPF, foram pagos cerca de R$ 600 mil ao então conselheiro Dado Cherem para que atuasse junto a prefeituras e defendesse os interesses da empresa no tribunal. Barcia também afirmou ter repassado aproximadamente R$ 2 milhões a Julio Garcia, então conselheiro, e a candidatos por ele indicados, como contrapartida por apoio institucional.
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Julio Garcia Imagem: Alesc/Reprodução

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Atualmente filiado ao PSD, Garcia deixou o TCE e voltou a ser eleito deputado estadual. Ele preside a Assembleia Legislativa de Santa Catarina e é um dos políticos mais poderosos do estado. Procurados, Garcia e Cherem negaram veementemente o relato dos delatores. Garcia chamou a narrativa dos delatores de “estapafúrdia” e Cherem disse que o relato é mentiroso porque confunde “de propósito” a promessa de intermediar uma doação empresarial, à época permitida, para campanha. Segundo ele, a doação nunca foi feita porque ele não foi candidato em 2014. Pelo relato dos delatores, a relação com políticos nem sempre era tranquila.
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Em São Francisco do Sul, contou o ex-diretor Barcia, um então prefeito ameaçou suspender o contrato de concessão de não recebessem R$ 9 milhões. Segundo ele, o valor foi pago, inclusive usando notas frias de uma agência de publicidade. Em Penha, outro município do Estado, um prefeito cobrara R$ 4 milhões para não criar empecilhos à execução do contrato.
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Já em Camboriú (cidade vizinha a Balneário Camboriú), a Aegea comprou três apartamentos do marido da prefeita como acerto político. O UOL enviou à Aegea questões específicas sobre as práticas criminosas de seus executivos contidas nas delações. A assessoria de imprensa da empresa informou que a manifestação estava restrita ao fato relevante publicado em 5 de fevereiro.
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Malas de dinheiro
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O suborno de políticos em troca de contratos ou de facilidades para a empresa aparecem logo nas duas concessões mais vistosas do início da trajetória da Aegea —Campo Grande (MS) e a região dos Lagos, no Rio, ambas operadas a partir de 2010. Pelo relato de Amadeo aos investigadores, em 2012, o então secretário de Governo da gestão de Sérgio Cabral no Rio, Wilson Carlos, exigiu R$ 8 milhões como condição para assinar um termo aditivo ao contrato da Prolagos, concessionária de água e esgoto de municípios como Arraial do Cabo, Búzios e Cabo Frio.
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Homem da confiança de Cabral, Wilson Carlos ficou famoso na “farra do guardanapo”, a festa em homenagem a Sérgio Cabral, no Hôtel de la Païva, um espaço de eventos exclusivo na avenida Champs-Élysées, em Paris, em 2009. Na ocasião, Carlos e outros auxiliares de Cabral foram fotografados confraternizando com guardanapos amarrados à cabeça. Ele foi condenado a 34 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, decorrentes do braço da Lava Jato no Rio, e chegou a ficar mais de dois anos preso. Libertado em 2020, ele recorre em liberdade. O UOL não conseguiu localizá-lo.
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27.abr.2017 – Wilson Carlos, ex-secretário de Governo de Sérgio Cabral (PMDB) no Rio, depõe ao juiz Sergio Moro na Operação Lava Jato Imagem: Divulgação/Justiça Federal do Paraná

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Amadeo diz ter autorizado o pagamento por Wilson Carlos, que foi entregue em dez parcelas mensais, em cash, a emissários do secretário que iam à sede da Aegea, em São Paulo. Dois outros funcionários da empresa contaram, em seus depoimentos, que eram encarregados de conseguir os pacotes de dinheiro e de fazer a entrega aos destinatários indicados. Dois delatores, o ex-diretor administrativo da Aegea no Rio, Felipe Ferraz, e o ex-financeiro, Flávio Crivellari, contaram que passaram a usar um escritório de advocacia para distribuir R$ 3 milhões a lideranças políticas da região dos Lagos. Segundo a versão contada aos investigadores, o escritório na rua da Quitanda, no centro do Rio, passou a funcionar como um “cofre” e ponto de retirada de suborno para evitar o risco do transporte interestadual de malas de dinheiro. O dinheiro vivo era “gerado” depois que a Aegea fazia pagamentos de honorários advocatícios e serviços nunca prestados por firmas de consultoria.
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Na capital sul-mato-grossense, segundo relato de Amadeo aos procuradores, a Aegea “recebeu pressão” de João Amorim, em nome do grupo político do então prefeito. A cobrança seria para fazer pagamentos destinados a formar caixa para a campanha do sucessor à prefeitura, em 2012, e, depois, para a disputa ao governo do Estado, em 2014. O prefeito de Campo Grande à época era Nelson Trad Filho, então no PMDB (atual MDB). Trad Filho (PSD) atualmente é senador. Amorim é um empresário de Campo Grande, que chegou a ser preso na operação Lama Asfáltica, deflagrada pela Polícia Federal em 2015, com foco na corrupção de obras públicas em MS. Valor do acerto, segundo Amadeo: R$ 30 milhões até 2015.
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Para viabilizar os pagamentos, a Aegea terceirizava a fraude. O ex-consultor Carlos Antonio Bernert disse aos procuradores que elaborou oito contratos fictícios entre 2011 e 2015, totalizando R$ 30 milhões em que simulava a locação de equipamentos junto às empresas Proteco e ASE, ambas de João Amorim. Pela comodidade de emprestar notas de suas empresas, Amorim ficava com 25% do acerto, segundo os delatores. Mesmo assim, houve tumulto e contratempos. O PMDB lançou Edson Girotto como candidato a prefeito e ele perdeu a eleição para o azarão Alcides Bernal. Bernal foi afastado depois, sendo substituído pelo vice Gilmar Olarte.
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O caixa dois da Aegea era ecumênico, segundo os delatores. Hamilton Amadeo contou aos investigadores que autorizou o pagamento de R$ 3 milhões para quitar dívidas de campanha do então vice-prefeito Gilmar Olarte. O CEO da Aegea contou ter atendido a um pedido para liberar R$ 4 milhões, em 2015, para uma caixinha de campanha de Bernal. Amadeo contou que entregou a Bernal a chave de um Fiat Uno onde estavam guardados pacotes de dinheiro. Segundo o ex-CEO, a entrega da propina ocorreu em uma casa na avenida Calógeras, no centro de Campo Grande. Amadeo conta ter acertado com o então governador Reinaldo Azambuja (à época no PSDB e atualmente no PL), no apartamento do político em Campo Grande, que a Aegea daria R$ 2 milhões para saldar dívidas de campanha.
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Amadeo entregou aos procuradores o endereço do apartamento, a data do encontro (13 de junho de 2015) e detalhes como o prefixo da aeronave em que viajou. Os pagamentos foram posteriormente viabilizados por meio da emissão de notas fiscais fraudulentas, referentes a serviços não prestados, pelas empresas Equipe Engenharia Ltda. e HL Construtora Ltda, segundo o delator. Procurado, o senador afirmou que ignora o conteúdo da colaboração de Hamilton Amadeo. “Não sou investigado no STJ, tampouco há qualquer procedimento conduzido pela PGR envolvendo meu nome em relação às declarações mencionadas”, disse ao UOL.
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Outro ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, disse que os dirigentes da Aegea comportavam-se como seus adversários políticos e mentem na delação: “Esse pessoal sempre foi contra mim. Nunca recebi um centavo desse povo”. O ex-governador Reinaldo Azambuja disse que nunca pediu nem recebeu R$ 2 milhões da da Aegea ou da Equipav e que não se lembra de ter participado da reunião citada pelo delator. “Nunca fiz tratativa nenhuma em 2015 sobre dívida de campanha nem com ele e nem com ninguém”, afirmou. O UOL não conseguiu falar com Bernal e Olarte.