Pais emitem nota de repúdio contra peça a ser apresentada grupo teatral de escola municipal de Penha; professores criticam polêmica


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Pais de estudantes da Escola João Batista da Cruz, da localidade do Mariscal, em Penha, acionaram o Penha Online na sexta-feira(22), em virtude de seu descontentamento para com uma apresentação teatral que será apresentada nesta terça-feira(26). O que chamou a imediata atenção dos reclamantes, assim que receberam a solicitação da autorização para que as crianças assistam às sessões no Espaço Educacional do Futuro (antiga Sociedade Amigos de Penha) foi o título da peça: “As aventuras de um Diabinho Malandro”.
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“Eu acho super desnecessário esse tipo de tema! Ainda mais sendo em uma escola que tem tantos outros temas para abordar e colocar em prática. Ah não tem a ver com a escola! Tem sim !! O grupo de teatro, o professor e os alunos os são da escola. Instigam as crianças a ir, entram nas cabeças das crianças, e querem que os pais aceitem quietos? Inadmissível. Não se trata de religiosidade, nem religião! É bom senso! São crianças e precisam ser redirecionadas e influenciadas com temas que não afetem! Não sei qual o contexto da história , porém o título já não agrada e não ensina NADA”, opinou uma mãe em grupo de moradores, repleto de pais descontentes trocando mensagens tomadas por indignação.
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O Penha Online então levou as reclamações à prefeitura, que emitiu a seguinte nota: “A Prefeitura de Penha, por meio da Secretaria de Assistência Social – pasta responsável pelo projeto de teatro, vem a público esclarecer alguns fatos referente a peça teatral de comédia que será apresentada na próxima semana. A Classificação indicativa condiz com a idade dos alunos e a sinopse do evento será apresentada abaixo, mostrando a total responsabilidade do professor Avito em relação a apresentação da peça. SINOPSE: As Aventuras do Diabo Malandro é um espetáculo escrito pela Maria Helena Kinner, justamente para trabalhar, dar uma lição de moral nos seres humanos, mostrando o quanto o ser humano é mau, uma vez que é uma história de um diabo que quer ser mau, mas ele não consegue competir com o ser humano, porque o ser humano é bem pior do que ele. A história trabalha a ganância humana, que quer devastar tudo em troca de dinheiro, uma grande lição de moral para todos que assistem. A Prefeitura de Penha reforça o seu compromisso com a educação, arte e cultura no município, por isso a importância desta nota explicando todo o contexto da peça teatral”.
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A nota não foi bem recebida pelos pais, que continuaram a discussão no grupo, até concluírem que emitiriam uma nota de repúdio, que foi igualmente encaminhada ao Penha Online, juntamente com o pedido de sua publicação: “Como pais e responsáveis pelos nossos filhos, viemos por meio desta, manifestar nossa indignação e repúdio , sobre o TEMA ESCOLHIDO para a peça TEATRAL: ‘As aventuras de um Diabinho Malandro’. Não aceitamos que este tema, palavras e contexto, seja inserido através de uma peça artística escolar. Mesmo que seja uma peça de livre acesso e idade, acreditamos que existam temas e assuntos muito mais importantes e educativos para serem apresentados aos alunos . Não se trata de RELIGIOSIDADE nem RELIGIÃO e sim bom censo educacional. São crianças a partir de 6 anos de idade que estarão expostas a esse tema, crianças e adolescentes que estão em fase de aprendizado e sobre influência constante. Pedimos encarecidamente que seja suspenso a peça, somos a favor da Arte e cultura sim! Desde que aborto temas que não tenham duplo entendimento, podendo causar medo ou interpretação maldosa nos alunos. Segue um trecho da peça, retirado do livro onde está disponível na Internet pela própria autora.: ‘DIABO: Heil Hitler!… (Para) Não… Ninguém faz mais essa gritaria toda… Quem sabe de Dono de uma fábrica de armas! De bombas! (Arremedo de caricaturas estilo história em Quadrinhos). DIABO: Também não… Mas como vou meter medo? Mostrar força e poder? (Nesse momento vem entrando alguém: é uma moça, habitante do planeta. Vem de costas, visivelmente desconfiada, olhando para trás para ver se está sendo seguida… Nem vê o Diabo, que assim que a avista, exclama’. Não aceitamos esse tipo de ‘arte’ para nossos filhos. Contamos com o bom censo e colaboração da Prefeitura e Secretária de Educação de Penha”, concluíram.
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O Penha Online ouviu também o professor Avito e o pedagogo Sandro Ricardo da Silva, especialista em educação lotado na escola João Batista da Cruz. Avito, em nota, deu a seguinte declaração: “O que está acontecendo é ridículo e revoltante, o nível de ignorância em pleno 2024, chega a ser inconcebível da compreensão humana. Este espetáculo eu clássico teatral infanto juvenil da escritora Maria Helena kiener, escrito na década de 70, foi apresentado em centenas de cidade no Brasil de norte ao sul. Foi apresentado até numa tribo indígena no meio da floresta amazônica. Eu já montei este espetáculo em Itajaí em 1984 e na cidade de Caçador em 1985. Inclusive em Itajaí, a 40 anos atrás, montei com uma equipe da oitava série da escola Fernando Potter, no bairro do Espinheiro. E não tínhamos espaço disponível, a não ser a igreja católica, e foi lá que apresentamos, no altar da igreja sendo usado como palco. A montagem de Caçador, foi feita por jovens e apresentamos em vários municípios do meio oeste e oeste. E com o nome oficial: As Aventuras de um Diabo Malandro. Nunca em nenhum momento houve questionamento. Infelizmente o nível intelectual dessas pessoas que questiona confunde ficção com realidade. O nível cultural é realmente muito baixo. Vivemos tempos obscuros e nesse momento a arte é importante pra fazer uma reflexão e tentar trazer essa gente de volta a realidade, com condições de fazer uma mínima leitura de mundo. Eu em 51 anos de trabalho no teatro e também como escritor teatral, tenho procurado usar minha experiência na luta contra a ignorância. As pessoas passam, as ideias ficam”.
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Por fim, pedagogo Sandro da Silva, opinou sobre a polêmica: “As poucas pessoas que estão promovendo a polêmica sobre a peça teatral “As aventuras de um diabo malandro”, fazem por pouco acesso à cultura literária brasileira (o que se costuma chamar de “ignorância”) ou por fanatismo religioso ou, ainda, por pura maldade. E vou explicar a razão. Primeiro, a peça é de uma pureza e de uma singeleza ímpares. Mesmo tratando (e criticando sutilmente) de temas como ganância, crueldade e exploração de pessoas e recursos naturais, o texto é simples e pode ser consumido, entendido e apreciado por pessoas de todas as idades.
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A história é mais ou menos assim: desacreditado e amargurado pelo fato das pessoas não darem mais bola para ele, o diabo acaba num outro planeta; por lá aparecem dois humanos gananciosos que passam a explorar, sem escrúpulos, os seres e os recursos naturais do planeta; o diabo então tenta “trollar” com esses humanos, mas acaba percebendo que eles (os humanos) fazem tantas maldades quanto ele.
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A peça é uma comédia, dessas que a gente ri do começo ao fim – e que desacredita o diabo (rsrs). A obra é da década de 70. Naquela época, ainda na Ditadura Militar, toda peça teatral precisava ser aprovada pela Polícia Federal. O texto é tão, digamos, ingênuo, que os censores (que devem ter rido bastante e gostado da obra), deram classificação LIVRE (conforme cópia do documento que lhe encaminho anexo). Ou seja, ela pode ser assistida por crianças, jovens e adultos, sem qualquer problema. As pessoas que hoje estão criando a polêmica, sequer se deram ao trabalho de conhecer a obra.
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Outro aspecto é que essa obra tem, de toda maneira, um cunho cristão. Ao desacreditar e debochar do diabo, colocando-o em situação de ridículo, e ligar as maldades humanas a ele (o diabo), a peça teatral se posiciona em e a favor do bem, que é um princípio cristão. Aliás, a literatura teatral brasileira está recheada de textos com o diabo (que sempre se dá mal, como na peça “As aventuras de um diabo malandro”). O “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, escrito em 1955, e “O demônio familiar”, de José de Alencar, de 1817 (Meu Deus! Posso citar muitas outras grandes obras com o mesmo tema), são dois exemplos famosos.
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Um terceiro aspecto é que essas pessoas precisam estudar a Bíblia, o livro sagrado dos Cristãos. De acordo com Frei Jacir, religioso franciscano com mestrado e doutorado, autor de vários livros, ligado ao Instituto Humanitas Unissinos (RS), o termo satanás, demônio, diabo e seus correlatos são citados ao menos 500 vezes na Bíblia. Já a expressão Diabo aparece a partir do Novo Testamento. Até mesmo Jesus usa o termo Satanás, no livro de Lucas, o Evangelista (um dos muitos que compõe a Bíblia). Aliás, é em Lucas e também em Marcos e Mateus (Mateus 4:1–11, Marcos 1:12,13, Lucas 4:1–13) em que o Diabo aparece, inclusive, como personagem ativa, submetendo Jesus a tentações. E Jesus, que é “O Cara!”, dá um balão no diabo.
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Então, diante desses argumentos, entendo que as pessoas estão criando essa polêmica por ignorarem a Bíblia, por desconhecerem a obra em questão e por não se disporem a aumentar seu acervo literário.
Aliás, as pessoas que estão tentando impedir essa boa peça teatral que desmoraliza o diabo, na verdade, estão ajudando indiretamente o demônio (que, se existir, certamente não quer ver seu nome envergonhado por aí).  Cristão de verdade iria assistir à peça ‘As aventuras de um diabinho malandro”, rir muito e aplaudir ainda mais as crianças da comunidade do Mariscal que, ao invés de estarem na rua, passaram dias e dias lendo, estudando e ensaiando para os espetáculos de terça-feira. ‘Bora lá ser uma pessoa do bem e ajudar a divulgar a peça ‘As aventuras de um diabo malandro’?”, concluiu ele, enviando também o documento do departamento de censura liberando a peça, que pode ser baixado neste link.
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As sessões estão previstas para acontecer às 8:30h, 13:45h e 20h.